fAISCAÇÃO 

Estes poemas foram escritos entre agosto e dezembro de 1999 e divulgados entre amigos por e-mails numa série denominada "Da Minha Lavra". Críticas e sugestões serão sempre bem-vindas.
EPÍGRAFE           

4  

Nada vos oferto 
além destas mortes 
de que me alimento 

Caminhos não há 
Mas os pés na grama 
os inventarão 

Aqui se inicia 
uma viagem clara 
para a encantação 

Fonte, flor em fogo, 
que é que nos espera 
por detrás da noite? 

Nada vos sovino: 
Com minha incerteza 
vos ilumino 

Ferreira Gullar - Poemas Portugueses 


I    

Navego a vida a procura de outros portos       
Triste sina de uma vida inteira.       
Percorro a terra com os olhos       
Com os pés vejo as pedras  e o caminho.       
Loucura? que me importa,   
Tolo é quem tem olhos       
mas não sabe onde por os pés.

II  

Tempo não se ganha nem se perde    
Artigo inexistente no mercado humano    
Tempo Deus nos dá, ou a Natureza,    
A ele só nos cabe adjetivos, nunca verbos.    

O mundo é redondo    
E ainda andando em frente    
Continuamos em círculos,    
Ou em outros em volta destes    

O passado é  pó,    
O presente é um moinho    
O futuro é o que nos resta,    
O futuro é tudo que nos resta,    
Sempre! 

III   

Escrevo para não enlouquecer    
cromossomos ribossomos    
íons mapas geografia    
palavras feias frias    
estranhas musas hipotenusas    
transversal esquiva sombria    
anjo de arcos tortos    
a apontar nomes estranhos    
pontos planos matéria sem massa,    
sol sem sombra,    
verde sem vida.    

Mundo estranho da ciência fria    
Amarela? Atéia? Vazia?    
Fantasias a um louco a tirar-lhes poesia.    
Fantasia?    
Fantasia é não estar louco,    
É  ser e não estar,    
É  ser e não ser! 

IV   

Tristes olhos passageiros    
Em claro dia que anuncia    
Morna manhã de inverno.    
Não esquece ou ignora    
O escuro escondido    
Onde o sol não ilumina    
E o calor de outros olhos não alcança 

 

Grafei teu nome num poema    
Aurora rósea a perfumar meus dias.    
Bradei por ti à minha estrela    
Rodei em vão mil tardes vazias.    
Irônica distância,    
Esteira em descaminho,    
Lá me alçava ao sonho    
Aqui declina o sol, a luz, o dia.    

Bate tanto um coração    
E nunca bate em vão    
Lança ao vento a melodia    
A noite finda e raia o dia. 

VI

Não sou um, sou vários    

Um é velho e monarquista,    
Que nas ruas de bengala    
Espia as moças e as saias.    

Outro é bêbado e anarquista    
Que largou a vida celibata    
E bebeu todo o vinho da santa missa.    

Tem um que é marinheiro    
Que o porto tem por casa    
E o mar por vida.    

E tem um padre, um maquinista,    
Tem um doido (que são vários),    
Chofer de praça, engenheiro, alpinista.    

Mas em todos me faço em um    
Quando vento sopra o nome    
E masca-me a saudade 

VII   

Estou só,    
Sem nome e sem fome.    
Alguns passam por mim,    
Outros passam em mim.    
Ninguém se detém.    
Estou só,    
E dentro tenho um nó,    
Neste peito seco    
À margem de um rio profundo    
Que te oculta os olhos,    
Onde corre a vida,    
Onde a alma finda. 

VIII   

Passa a hora, o dia, o ano,    
Passa tudo em grande espaço,    
E hesitante num instante    
Passa o passado pesado    
Num rosto, num banco, num caco.    
E a libélula que pariu o elefante    
Diluída evaporou-se    
Nos becos, nos cantos, no espaço.    
Mas ainda resta o nome, resta ainda o sonho,    
Resta esta maldita ânsia por felicidade    
Que corrói a carne, que putrefa a alma,    
E aprisiona o sono. 

IX (Solidão)

Presente que não se tem,    
Passado que não se fez    
Futuro que cai ao chão    

Árvore que não se tem,    
Flor que não se fez,    
Fruto que não vai ao chão.    

Isto que somos nós    
Verbo em inanição    
Semente em involução. 

X  

Perdoa se os versos teus,    
Que a muito custo os fiz,    
Tristeza somente os faz.    

A culpa jaz na tristeza    
Latente e seu muito espaço    
Já meus dois olhos não bastam. 

XI 

(Saudade)      

Inexplicável como a vida,    
Inexorável como a morte,    
Inerente como a sina,    
Intangível como a sorte.    
E assim o inapto coração,    
Dança inconsolável    
A incompatível cadência do não. 

XII   

Esquivo destino meu    
Errar mudo e contínuo    
Em terra, em sombra, em círculo    
Lavrar na terra o que pertence ao céu    

Tantos livros, discos, contos    
Tantos sonhos que não eram seus,    
Tanto mar, tanto amar... Tonto!    
Mar sem Sal, Tu sem Eu    

Mas a teia não resiste    
Depois de fartada a aranha    
Farta-se a lagartixa    

O que veio foi, o que chegou partiu    
Teimam dois olhos argentinos    
E o meu sorriso a esperar o teu. 

XIII  

O  verso é meu vício    
A tinta é a tua    
O papel é o meu 

XIV   

Espero na sala escura    
O lento dissolver das sombras    
Que palmilhando a fina retina    
Dissolvem-se em água pura    

Espero na sala escura    
O abrir de uma janela    
E o sol que vira com ela    
Trará a luz que inflamará a vela 

XV (Amor)     

Ontem sonhei    
Sonho ancestral    
Anterior ao tempo    
Anterior ao nada    

Sonhei que sonhava três sonhos    
E em cada um deles haviam mais três    
E oscilavam todos em três partes    
Permutando-se em três em esferas    
Sempre em pausada espera    
Sempre em ausência etérea.    

Sonhava tanto que já não sabia    
O que era meu mas não estava em mim    
O que era o eu que não havia em mim    
O que era meu e sempre estivera em mim    

Ontem sonhei um sonho    
Um sonho que foram vários    
Que me acompanham a dois mil anos    
Do tempo em que eu não me havia    
Do tempo em que tempo não existia    
Tempo a quem faltava o raiar de um claro dia 

XVI  (O Beco)      

Busco o beco em tua boca    
Onde a seta fere a fala    
Mas úmida língua não cala    
E sereia me seduz à tua boca.    

Busco o beco em tua boca    
Que sustenta a fala arfante    
Linda louca luta entre lábios    
Úmidos, salgados, doces e molhados.    

Busco o beco em tua boca    
Cela onde não há porta nem janela    
E o sangue quente comprimido    
Explode em riso, em gozo, em raio multicolorido. 

XVII  

Olho no espelho a face estilhaçada    
Em cada parte fria entrelaçada    
Fica a mágoa da dura bofetada    
Que me deste quando ainda era amada    

Estilhaços em ângulos dispostos    
Ângulos em lâminas impostos    
Ódio e fúria em minha carne expostos    
Meus ossos em cinzas decompostos    

E o monstro nestes versos desenhado    
Triste e frágil se esvai desalinhado    
Como o rosto que se foi, estilhaçado,    
Face triste e o coração desamparado 

XVIII  

Primeiro vi se teus olhos    
Depois toquei teu corpo    
Busquei tua boca    
Tentei tocar teu coração    

Esquivaram-se os olhos    
O corpo disse não    
Fecha-se a boca    
Afastou-se o coração    

O Amor é uma mentira    
O Amor é confusão    
É uma rua com faróis vermelhos    
Onde andam corações daltônicos. 

XIX 

(Amar não é amor ou  nunca fui bom em gramática)     

No início era o verbo,    
errático transitava em sonho e sentido.    

Concretando o abstrato,    
Se mascara o verbo em substantivo,    

Juntei a ele mil adjetivos    
Bons, belos, perdendo o sono e o siso.    

Mas desde o início tudo estava perdido    
Amar é intransitivo. 

XX  

Não ando nunca sozinho    
Sempre estou só, eu e meus espinhos,    
E flores do nunca, e flores do mal    
Onde só medram espinhos.    

Não erro nunca o caminho,    
Caminho não há, só descaminho    
Em terras que nunca fui    
Nos sonhos que nunca tive    

E tenho um corte na mão    
Que não é um, são vários    
E nunca sei quem os fez    
Sonho, caminho ou espinho 

XXI (Soneto de despedida)  

Há quem parta, há quem chegue, há quem fique;    
E nunca ninguém partiu sem ter chegado.    
Agora partes com meu coração;    
Comigo fica a parte tua que lá chegou.    

Há quem parta, há quem fique,    
E nunca ninguém ficou sem que alguém partisse.    
Agora partes partindo meu coração;    
Parte minha foi, parte tua ficou.    

Mas o mundo é redondo    
E ainda andando em frente    
Continuamos em círculos.    

Há quem parta,    
Mas há quem volte,    
E o que é em parte será por inteiro