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ANGELINO DE OLIVEIRA - O MITO CAIPIRA
Angelino de Oliveira nasceu em 21de abril de 1888. Ainda criança mudou-se para BotucaTu. Morou ainda em Ribeirão Preto, onde cursou a Escola de Farmácia e Odontologia, e São Paulo, onde faleceu em 24 de abril de 1964. Mas foi em Botucatu onde desenvolveu a maior parte da sua atividade musical, sendo o músico local mais cultivado da cidade, embora outros tenham alcançado maior fama como Raul Torres e Antenor Serra, o Serrinha. Em sua homenagem foi instituído, em 1967, o "Dia do Sertanejo", comemorado no último domingo de junho. Em 1982 foi instituída a semana "Angelino de Oliveira" que anualmente celebra-se na semana que inclui o dia 17 de junho. Existe na cidade a "Escola Estadual de Primeiro Grau Angelino de Oliveira", bem como uma rua com seu nome na Vila Nova Botucatu. Foi-lhe concedido post-mortem o título de Cidadão Botucatuense.
No entanto o cultivo de sua memória ainda não alcançou sua produção musical. Poucos botucatuenses conhecem mais de 3 ou 4 músicas de Angelino, e foi isto que mais me chamou a atenção quando, em 1998, comecei a pesquisar sua vida.Talvez por isso, o desconhecimento de sua produção musical, criou-se no passar dos anos esse mito de compositor caipira, fato que encontra pouco sintonia com sua obra.
Já consegui reunir 18 músicas de Angelino de Oliveira, a partir de partituras editadas, manuscritos dispersos e gravações caseiras.São elas:
| Acorda João | Noite de São João | Cabocla do Sertão |
| Caboclo Velho | Prece de Caboclo | Incruziada |
| Cativeiro | Saudades de Botucatu | Meu Bem |
| Festa do Arraiá | Semíramis | Meu País |
| Meu Primeiro Amor | Tenho Pena dos Meus Olhos | Tristezas do Jeca |
| Manhãs de Minha Terra | Porque | História Triste |
Os textos abaixo foram publicados na imprensa de Botucatu e são resultado da pesquisa que venho realizando sobre Angelino de Oliveira, trabalho iniciado em 1998 para a disciplina de Etnomusicologia do professor Alberto Ikeda, do Bacharelado em Composição e Regência do Instituto de Artes da Unesp em São Paulo, onde estudo.
Sintam-se a vontade para usarem os textos abaixo, mas por favor, façam a referência ao meu trabalho! Isto garante a confiabilidade do seu texto, além de ser o único reconhecimento pelo meu trabalho, até agora realizado todo ás minhas custas.
Onde está a música caipira de Angelino de Oliveira?
Fernando Pereira Binder
Começam na próxima segunda-feira as comemorações da Semana Angelino de Oliveira, com apresentações onde predomina a música sertaneja. Mas até que ponto isso realmente responde pela produção musical deste consagrado compositor?
Hoje são poucos os botucatuenses que conhecem mais de três ou quatro músicas de Angelino, embora nos últimos anos dois livros tenham sido dedicados a ele: o de Paulo Freire, Eu nasci naquela serra, e o de Marilda Cavalcanti, Angelino de Oliveira o inspirado autor de Tristezas do Jeca. Este trabalho mais cuidadoso e sistemática que o primeiro, e reúne farta documentação além da discografia e musicografia.
Todos os dois têm seus méritos, mas nenhum se preocupou em reunir e análisar da obra musical de Angelino.
Desde 1998 venho reunindo as músicas de Angelino de Oliveira, trabalho iniciado na aula Etnomusicologia do professor Alberto Ikeda, no curso de Composição e Regência da Unesp, São Paulo. Consegui reunir 18 obras, algumas em partituras, outras em manuscritos dispersos e em gravações caseiras. Ao que eu saiba é a maior coletânea musical realizada até hoje.
Após reunir este material, o que mais transparece é a inexistência dos gêneros musicais mais consagrados como sendo música sertaneja, como os cururus, modas de viola e catiras. O que surgiu são canções, tangos, valsas, sambas-canções, e até um fox-trot!
Em suas obras o que mais se aproxima da música sertaneja são suas toadas, como a famosa Tristeza do Jeca. Mesmo neste caso específico a música sugere algumas considerações.
Uma das edições desta música, na década de 20, traz na capa a indicação de gênero: Canção. O ritmo da melodia é diferente do hoje se canta, bem como o andamento sugerido na partitura: Lento. Até uma parte da melodia está em altura diferente do que se canta por ai, modificação provavelmente introduzida pela gravação de Tonico e Tinoco, fato já apontado por Paulo Freire.
A primeira garvação de Tristeza do Jeca feita em disco data de 1922 ou 23, interpretada pela orquestra Brasil-América, numa versão instrumental. A segunda saiu em 26 e foi interpretada por Patrício Teixeira (1893 - 1972) cantor carioca, da turma de Pixinguinha e Donga. Em 1937 foi gravada por Paraguaçu, pseudônimo de Roque Ricciardi (1894 - 1976) que ficou famoso como cantor de serenatas, as modinhas, gênero de música romântica muito popular no inicio deste século. Anteriormente ele gravara outras músicas de Angelino. Em 31, lançou em disco Tenho pena dos meus olhos, canção, absolutamente romântica, sem "um pingo de sertão". Em 36, gravou Lua cheia, que ainda não localizei.
Some-se o fato de Tristeza do Jeca ser publicada em partitura e em época anterior ao primeiro "boom" da música caipira, ocorrido em 1929 com as gravações pioneiras de Cornélio Pires, quando autênticos caipiras entraram finalmente na indústria cultural.
O que foi colocado não tem a pretensão de estabelecer uma nova "verdade", mesmo porque o trabalho ainda não está acabado. Também não queremos desmerecer o trabalho da Secretária de Cultura. Hoje celebra-se a memória de Angelino com música, e não somente com placas, discursos, nomes de rua e escola e artigos de jornais, como este. O que queremos é ampliar o conhecimento que se pode ter da obra deste músico à luz de novos fatos e informações. E Viva Angelino de Oliveira!
Artigo publicado no jornal Diário da Serra, Botucatu 10/11 de junho de 2000, n.° 1350, Ano IX, pág 6.
Formação e atuação musical de Angelino de Oliveira
Fernando Pereira Binder
Angelino de Oliveira (1888 - 1964) iniciou-se musicalmente na Banda São Benedito por volta de 1908. Além das celebrações religiosas, ela animava retretas de domingo á tarde, apresentações públicas destas corporações nos coretos da cidade. Além de marchas ouviam-se polcas, valsas, tangos e mazurcas: gêneros de música de salão que causaram furor no início deste século.
Em 1911 ele integrava a orquestra do Grêmio Literário e Recreativo, clube criado pela elite botucatuense para incrementar as atividades sociais da cidade. Cabia a orquestra animar os bailes promovidos pelo clube, propavelmente com um repertório de danças de salão.
Por volta de 1917 Angelino já era reconhecido como músico e violonista talentoso quando formará com José Maria Perez o duo Violguita. Mais tarde o duo incorporou o pianista Luiz Cardoso passando a chamar-se trio Viguipi. Apresentavam-se em cassinos, festas particulares e casas de espetáculos em várias cidades do interior paulista, na capital do estado e até mesmo em Poços de Caldas, MG, no famoso cassino Gibrinha.
Em 1940 torna-se o diretor artístico da recém criada rádio PRF-8, onde criou e dirigiu programas como Alma Sertaneja e Hora Literária. Tentou atuar no comércio com A Musical, loja que vendia vitrolas, discos, instrumentos e partituras, e também possuía a Jazz Band Carlos Gomes para a animação de festas, casamentos, batizados e o que mais aparecesse. Não tendo sucesso, Angelino fecha a loja e dedica-se á corretagem de imóveis.
Como se vê sua formação e atuação musical, além do rádio, teve pouco contato com a música caipira sendo sua obra marcada por canções, das quais já reuni 18. Nela, a letra possui certo aroma sertanejo, tal qual Catulo da Paixão Cearense, mas musicalmente pouco possui do universo do caipira.
Artigo publicado no jornal "A Cidade", Botucatu, 14 de junho de 2000, n.° 808, Ano IX, pág. 2.
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